quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A Beleza Será Convulsiva, ou Não Será

Loïs Mailou Jones, design têxtil para Cretonne, 1928

No recente pânico moral que se levantou contra alguns ramos da Arte, lado à lado com a discussão sobre nudez e pedofilia, frequentemente emergiram também brados de "isso não é arte", contrastando as obras de estilística chocante (e também as artes demasiado conceituais) com as obras de artistas neo-clássicos ou até mesmo modernistas e surrealistas (!). "Você colocaria este quadro na parede de sua casa?", bradaram indignados os novos críticos.

Já argumentei aqui no blog que é um terrível empobrecimento pautar a Arte como uma sub-seção da Decoração. Realmente, nas paredes de nossas casas, a maioria de nós prefere imagens que transmitam conforto, porque a função principal de uma casa é possibilitar o refúgio das labutas do mundo. Não há nada de errado nisso, mas a vida não se restringe ao harmônico, a arte não apenas um refúgio mas também uma luta - e uma dose planejada de desarmonia pode ser ela mesma salutar, como reza o velho adágio sobre venenos na dose certa.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CAPITALISMO NÃO É UM SISTEMA SOCIAL


Aleksander Rodchenko, Maquette for War of the Future, 1930

é precisamente a falta de um.

Imagine um pulha que não liga pra nada. E ele tem armas.

Ele toma pra si terras e máquinas. Ele abre pros outros trabalharem nelas - quer dizer, trabalhar pra ele. Nos termos dele.

Ele tem dinheiro. Mas esse dinheiro só significa alguma coisa pois garante acesso à comida, moradia e diversões, que por sua vez dependem de terras, máquinas, e gente trabalhando nelas. Gente botando fé que trabalhando nelas, vai poder ter acesso a casa, comida e diversão.

E só há terras e máquinas pra as pessoas trabalharem se há armas pra conquistá-las e depois defendê-las de outros pulhas.

Então, dinheiro é uma forma organizar os saldos do poder armado.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O GRANDE APRISIONADOR (Parte II)


Peter Zokosky, "Attraction" (2008)

UM CLARÃO EM MEIO À ESCURIDÃO

"Como caíste do céu, ó Lucifer, filho da alva!"
Isaías 14:12

Conforme a Luz descende, o Inferno, até então escondido, se revela.

E o Inferno é a Matéria, o Caos, a receptividade original, a Deusa antes de parir o universo.

E a Luz é uma contaminação. A matéria está sendo contaminada pela Luz. Ela reage à esta estranha presença, criando o fantasma do Mal.

O Diabo em sua queda é o bode expiatório à quem foi confiada a maior e mais ingrata de todas as tarefas: levar a tocha pra dentro da caverna. É por culpa dele que enxergamos. E como odiamos enxergar!

terça-feira, 9 de maio de 2017

SATURNO




Saturno é um mundo em ruínas.

Palácios caindo aos pedaços, pilastras de mármore em meio aos sapos, prédios abandonados cheios de poças no chão.

É a hecatombe ecológica,
a terra água e ar envenenados, pilhas de entulho, resto enferrujado de ferrari e embalagens de batata-frita, polaróides apagadas e tevês espatifadas.

Saturno é o cérebro frito da máquina,
o registro inflexível do algoritmo, o controle 24 horas, estado policial,  a agência de espionagem, o triunfo do asfalto sobre o mato, da burocracia sobre a criatividade, da crítica sobre a fé.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ensaio sobre o Disco


Ace of Disks, Thoth Tarot (Crowley-Harris)


O DISCO É A TERRA

E a Terra é uma grande roda. Tudo que vai, volta; do pó viemos ao pó retornaremos; a gente come, a gente caga, o adubo faz a plantinha crescer pra gente comer de novo. O dia sucede à noite, a noite ao dia; a isso todos os seres vivos se adaptaram, cada qual a seu modo - entre o descanso e a atividade. O giro do disco é inexorável, e a única certeza possível é que nada permanecerá parado, parar é a própria morte, mas mesmo a morte é só mais um passo rumo uma outra vida. O Disco é Anicca, a impermanência, e por isso a Terra é o Eterno Retorno da Diferença.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Contra o ideal ascético

(arte: Hans Burgkmair)

Rezam algumas tradições que o curso de ação mais virtuoso é a renúncia ao mundo e à sociedade: o ideal ascético. Subir a montanha ou vagar no deserto, sacrificando a vida a um outro mundo no Céu ou na extinção do Ser no Nirvana: tudo menos esta bagunça aqui de fogo, lama, sangue e poeira.

É verdade, a mais nobre verdade, que a vida na Terra é desprovida de sentido intrínseco. Que as idéias de duração, permanência, fixidez, são fundamentalmente ilusórias, assim como o "eu" que faz o sujeito da Cultura. Com isso estou repetindo os ensinamentos chave de Buda:  Eu e Duração são efeitos de superfície, que não tem nada a ver com os fundamentos da vida ou da realidade. E a maioria absoluta das pessoas passa a sua vida inteira rastejando no superficial.

Similarmente, o que passa como "cultura" hoje - e talvez na maior parte da história civilizada - é de uma pequenez de sentido que chega a doer. Quero dizer, as discussões porcaria da tevê ("Malhação discute o problema das drogas"). Mais uma geração de celulares, dessa vez com megapixels extra. Miniaturas de capacete. Vibradores em forma de super-heróis. Outro retrô nostálgico de outra década perdida. Roupas na moda este verão. Caetano estaciona no Leblon. "Porque ele não se mata de uma vez / pula logo deste prédio?" (essa frase eu ouvi várias vezes ontem). Até coisas verdadeiramente pungentes e baseadas em experiência vivida, como por exemplo o dilacerante legado da escravidão e do patriarcado, acaba diluído em briguinhas virtuais que gastam muito tempo de todo mundo e adiantam muito pouco. Tudo isso em eletrônicos cuja fome de energia justifica chutar os Munduruku pra fora de sua terra sagrada. Em petróleo cavado à custa de vazamentos de óleo como o da BP. Cuja mineração acarreta desastres como o assassinato do Rio Doce pela Samarco/Vale/BHP. Cuja produção é feita em fábricas com trabalho semelhante à escravidão. Cujos componentes tóxicos serão empilhados na Africa sob a alcunha de "reciclagem".

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Feitiçaria da Poeira II - Cai a Ficha


Este texto é uma tradução minha (não-oficial) de um artigo do Dr. Alexander Cummins chamado "Dirt Sorcery II - Penny Drops". Foi publicado originalmente no Gods and Radicals e aqui disponibilizado sob a gentil autorização do Dr. Cummins, que mantém também um tumblr contendo um enorme arquivo gratuito de scans de antigos grimórios



Rituais de “pagar” pela poeira [1] a princípio parecem terrivelmente incongruentes com a política da magia anti-capitalista. Devemos estampar a tudo com uma etiqueta de preço? Cada interação mediada pela promessa chata e repetitiva de dinheiro duro e frio, ou débito tenebroso de plástico? Mas há muitas formas bruxas de pensar sobre moedas e sujeira que precedem o capitalismo industrial, antes da usura atingir tamanhas proporções. As ferramentas do mestre certamente não derrubarão a casa do mestre enquanto seguirmos as instruções. Mas as moedas enquanto matéria podem se prestar à várias reapropriações deste poder opressor.

Basta de papo. Remova o suposto valor monetário da moeda da Águia Dourada, esse sentido estreito que alegam, e considere-a sob um ângulo novo. Peças de metal. Engaje o objeto e seu espírito em seus próprios termos, por sua própria história. De uma certa perspectiva - especificamente, uma que não isola a empreitada humana das ações do mundo natural - uma moeda cunhada e formada pode não ser tão diferente do belo ofício natural da geologia metamórfica. Por outro lado, talvez o Jardim esteja mesmo perdido pra sempre. Talvez essa feitiçaria monetária da sujeira seja um desejo em vão, mas também são os níqueis, especialmente nas mãos dos desesperados.